Serious Games ou "como prostituir uma arte em prol de alguns trocados"

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Serious Games ou "como prostituir uma arte em prol de alguns trocados"

Mensagem por infernosword em Seg Fev 13, 2017 10:00 pm

Existem as pessoas que nasceram jogando videogames e outras não. Creio que todos aqui do fórum fazem parte de primeiro grupo ou, na pior das hipóteses, entraram no mundo dos jogos cedo. Hoje vou destilar meu desgosto com uma tendência que está tomando o seu lugar no mundo: a gamificação. Contém 1 palavrão.

Gamificação (do inglês gamefication) é uma nova técnica que ajuda a encarar uma série de problemas como aprendizado, comprimento de tarefas e outras bobagens do mundo corporativo por meio do uso da dinâmica de jogos, para que o usuário sinta-se como se estivesse jogando um game, mas na verdade esteja resolvendo esses problemas. Para exemplificar, vou usar o meu próprio exemplo.
O trabalho de um programador é basicamente o de criar tarefas (coisas para serem feitas) e realizá-las. Corrigir bugs, implementar novas funcionalidades e fazer testes. Para realizar o controle dessas tarefas, muitos marcam num papel, outros usam um quadro cheio de lembretes post-it, outros usam softwares de controle e outros nem marcam e vão fazendo na louca mesmo. Eu me lembro o dia em que a novidade chegou no escritório.
Um novo sistema online estava sendo testado e permitia inscrições grátis para times de até 5 pessoas. Lembro também que todo mundo teve que fazer uma conta nesse site, afim de usar esse novo sistema. E em uma semana, ele já era a solução do nosso problema. Um sistema que criação e agendamento de tarefas, que permitia aos programadores se organizarem e produzirem mais (marque essas palavras). Tudo legal e tudo divertido até o chefe chegar e anunciar a grande feature do programa: "... e tem um negócio legal, você vai fazendo as tarefas e vai abrindo esses negocinhos aqui, tipo como se fossem achievments do Xbox..."
Eu tenho um problema na minha vida, que é o de, às vezes, com poucas informações, criar um panorama completo da situação e prever algumas coisas. Basicamente, a frase do chefe foi suficiente para eu prever que tudo era uma pegadinha do Mallandro (sempre que o seu chefe vier com uma "coisa legal", saiba que lá vem merda). Não mais do que dois minutos foram suficientes para a empresa subir 140% em produtividade.
O programador mais próximo, que por muito tempo foi meu amigo, começou: "Nossa, se você criar cinco tarefas já vai para bronze!" E lá foi ele, fazer suas cinco tarefas e ganhar sua medalhinha. O outro programador, um cara que, eu juro por deus, nunca teve amigos, bradou: "Cinco? Eu vou logo para dez e para a prata!". E aí tinhamos 50% da compania trabalhando em full-mode por algumas medalinhas virtuais. Quer dizer, trabalhar virou um jogo e produzir, diversão. Então, o que pode haver de errado nisso? Afinal, estamos trabalhando e ainda por cima, estamos nos divertindo. Chegou o final do dia.
Dando uma olhada nos "ranks" de cada um, tinhamos um com quase 8 tarefas prontas e outro com suas 10 prontas. E eu, com uma tarefa pronta. "Parece que alguém não entrou no jogo hoje..."
Dois tipos de arte são sagrados para mim, Música e Videogame. Ambas com letras maiúsculas. Jogos são feitos para intrigar, divertir, fazerem as pessoas refletirem e talvez ensinarem alguma coisa. Não para as enganarem as pessoas e fazerem elas trabalharem mais. Não para mostrarem que na vida é tudo divertido e dinâmico, produzir sem preocupação. Na era em que tudo é app e digital, esquecemos mais e mais da vida real, que apesar de não ser a melhor do mundo, nos faz humanos inteligentes, não macacos guiados. Um app não precisa me ensinar a como cuidar de um filho meu. Um jogo não precisa me ensinar a resolver meus problemas com o banco "amigavelmente". Esses papo de gamificação é vendido como um papo legal e descolado, mas trata-se de uma tremenda picaretisse para quem realmente conhece os videogames e a sua mágica. Serious games é uma coisa que me tira do sério (com o perdão do trocadilho) atualmente. É mais ou menos na linha do empreendedorismo de palco.
E pra piorar, a minha tarefa, cuja a duração era de 8 horas (um dia de trabalho), foi a tarefa que mais rendeu, proporcionalmente falando. Tudo contido nela foi realizado no tempo correto e sem atropelar o fluxo que nós já haviamos estabelecido no passado. As tarefas dos outros eram, na verdade, uma tarefa dividida em 500 de 10 minutos e só para os programadores competirem e a empresa "sair ganhando". Isso serviu para notarmos que essa corrida mais nos prejudicou do que ajudou. Mas isso eu deixei pra eles descobrirem sozinhos, um bom tempo depois. Smile

Tudo isso porque eu amo os videogames, como eles são e para o que eles foram feitos de verdade.
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Re: Serious Games ou "como prostituir uma arte em prol de alguns trocados"

Mensagem por Eder em Ter Fev 14, 2017 10:09 am

Até acho a ideia de "unir o útil ao agradável" algo bacana. Mas também acho que tudo deve ser devidamente explicado, principalmente, o objetivo por trás daquilo. Transformar um trabalho em um "joguinho" apenas para o patrão sair ganhando não me parece muito honesto...

Aliás, falando nos "achievements", o que acontecia com quem platinasse o "Job Party"? Era promovido? Virava o novo chefe/patrão? Ou apenas ostentava sua coleção de medalhinhas virtuais? xD
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Re: Serious Games ou "como prostituir uma arte em prol de alguns trocados"

Mensagem por infernosword em Ter Fev 14, 2017 6:16 pm

O sistema é lazarento ao ponto de você sempre ter algo pra fazer e nunca conseguir platinar tudo 100%. Para os que conseguiam alguma coisa, ficava aquela coleção de medalinhas virtuais que ninguém tinha, ou todos já tinham.
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Re: Serious Games ou "como prostituir uma arte em prol de alguns trocados"

Mensagem por Willi em Ter Fev 14, 2017 9:30 pm

Muito interessante esse ponto de vista, Inf. Curioso como você o comparou com o empreendedorismo de palco, outra grande merda enganadora da atualidade.

Eu penso de maneira semelhante com relação a algumas coisas. Um exemplo: a música See You Again (não preciso descrever, todos vocês conhecem). Eu assisti Velozes 7 no cinema e, ao fim do filme, esta canção soou como uma linda homenagem ao ator Paul Walker, que deixou o elenco. É uma música que parece ter sido feita (e foi) para aquela ocasião, aquele momento, aquela experiência. E vê-la prostituída no celular de um bando de pirralho que nem conhecem a franquia, pra mim, é uma ofensa. Remix dela, pra mim, é uma ofensa. Enfim, é a mesma leitura que você fez, mas tendo esta música como objeto.

Outro exemplo: Super Mario World e YouTubers. Super Mario World é o jogo preferido deles. Fácil de emular e cheio de curiosidades, é facílimo fazer vídeo dele falando sobre aleatoriedades relacionadas ao mesmo. Agora pergunta se alguém faz vídeo de Aquapazza, Blades of Time ou Quantum Theory, três títulos semi-desconhecidos do PS3 e que exigem comprar console e game? Os tais "geradores de conteúdo" não querem efetivamente trazer um conteúdo diferente, mas ganhar views com a prostituição do conteúdo já batido e de fácil acesso.

Por estes exemplos já me fiz entender. Compreendo a tua mentalidade e compactuo com teu posicionamento.

Vou dividir meu comentário em dois, pra não ficar muito grande. Se mais gente interagir por aqui, direi o que penso sobre jogos VR e Mobile.
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Re: Serious Games ou "como prostituir uma arte em prol de alguns trocados"

Mensagem por Eder em Qua Fev 15, 2017 10:01 am

Willi escreveu:Eu penso de maneira semelhante com relação a algumas coisas. Um exemplo: a música See You Again (não preciso descrever, todos vocês conhecem). Eu assisti Velozes 7 no cinema e, ao fim do filme, esta canção soou como uma linda homenagem ao ator Paul Walker, que deixou o elenco. É uma música que parece ter sido feita (e foi) para aquela ocasião, aquele momento, aquela experiência. E vê-la prostituída no celular de um bando de pirralho que nem conhecem a franquia, pra mim, é uma ofensa. Remix dela, pra mim, é uma ofensa. Enfim, é a mesma leitura que você fez, mas tendo esta música como objeto.

Mas, Willi, embora a música tenha sido composta para a trilha do filme, ela também é um produto comercial. A gravadora a lançou como single, um clipe dela foi disponibilizado no YouTube e afins. Eu, que não sou fã da franquia, ouvi inúmeras vezes essa música no rádio. Enfim, se os pirralhos baixam a música e colocam no celular apesar de não terem assistido Velozes e Furiosos 7, a culpa dessa "prostituição" não é bem deles (talvez seja culpa do capitalism... não, sem discussões sobre isso nesse fórum xD).
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Re: Serious Games ou "como prostituir uma arte em prol de alguns trocados"

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